Eu dormi?

Minha irmã de dois anos de idade fala muitas coisas geniais. Eu acho. A gente tende a achar a criança da gente mais inteligente do que ela realmente é. Fora desse círculo <<a gente e ela>> geralmente é mico cada bobagem que comemoramos. Mas ok. Dito isso, eu acho e grito pro mundo ouvir: minha irmã de dois anos fala muitas coisas geniais! Uma das coisas que ela falou recentemente e eu sempre uso é “Eu dormi?”. Contexto: estávamos num aniversário de adulto (sempre tem) e não sei se por sono ou por não ter bolo e balão ela se perdeu no parabéns e assim que acabamos de cantá-lo ela perguntou “Eu dormi?”. Desde então eu sempre uso porque acho que se encaixa muito bem nas situações da vida que dão um baile na gente, na nossa politicazinha que gira tanto que dá náusea de vodka.

Contextualizado o título, vamos ao que interessa! EU DORMI? Porque, cara, teve um 2014 de eleição mega complicada, um ano em que tanta coisa acontecia que a gente não via, se embebedava pra pra vida ficar mais fácil e chegava a trabalhar 20 horas por dia. A gente viveu mais uma paixão em 2014 que uma eleição. E as coisas já não se indicavam fantásticas. A gente sabia que pós paixão a gente podia notar que a pessoa amada não era tão bonita, tão simpática ou, assim, tão parecida com a gente. Mas a gente sabia que aquele lance arrebatador ia nos dar força pra seguir em frente. A gente ia superar os problemas.

giphySó que aí… Eu dormi? Quando a gente achou que tinha acabado a parte desafiadora de 2014 e fosse começar a luta de 2015, entramos num looping. A vida (ou o capeta) jogou na nossa cara os piores momentos (e apenas os piores) de novo, de novo e de novo. Mais. A vida jogou na nossa cara que a paixão de 2014 era uma grande mentira. Que ela foi construída em alicerce de areia e que os momentos bons não seriam tão fortes pra aguentar os momentos ruins de 2015.

Aí eu pergunto. Eu dormi? Porque tudo que me lembro é de uma eleição vencida em 2014, de uma posse com uma promessa que me encheu os olhos e o coração. Seríamos uma Pátria Educadora. Pensei à época, sob o sol de janeiro no Planalto Central, cheia de ressaca do réveillon “Se ela garantir isso, tá demais! A gente vai se emancipar. Esse país vai crescer. Vamos evoluir. Vamos revolucionar!”. Porra nenhuma. Talvez esse sonho, essa promessa, tenha sido o primeiro indicativo de que a paixão não era real. Arrefeceu muito rápido. Arrefeceu no principal. Mas a gente seguiu junto. De mãos dadas porque havia um compromisso. Era nesse compromisso que a gente se agarrava.

Não teve uma só trégua esse ano. A nossa paixão, que demoramos a aceitar que era fake, deu porrada na boca do estômago o tempo todo. Quando a gente achava que dava pra apontar o dedo e dizer “minha paixão é real, olha só” lá vinham dez dedos em nossa direção. Foi assim uma série de vezes. Foi assim quando comemoramos Janine na educação e depois soubemos que a pasta ia virar consolo pro Mercadante. Foi assim quando nossa saúde tão debilitada lançou uma iniciativa bacana e levou cartões do SUS pra sistemas digitais e logo em seguida demitiu o ministro por telefone para dar lugar a qualquer sanguessuga do PMDB. Foi assim antes, lá no começo do ano, quando Ideli largou a SDH após o lançamento de um projeto tão necessário em tempos de internet pra dar lugar a um político de birra por perder um cargo. Tem sido assim.

Eu dormi e acordei ao lado de um estranho. E a noite foi intempestiva, não foi boa. Não pra mim. O estranho acordou antes, catou todas as minhas coisas, levou meus mais importantes ministérios, levou minha esperança recente. Agora, não que eu não vá esperar que as coisas melhorem, mas a cada dia que passa parece que as coisas vão demorar mais pra melhorar. E vai ser mais difícil melhorar. Eu sequer sei se o estranho que roubou meus pertences ao acordar vai deixar as coisas melhorarem. A minha paixão, sem dúvidas, ele levou. Não sei sob que ameaças. Não sei a que preço. Talvez eu já nem precise de paixão. Talvez eu tenha criado muitos problemas no ~tempo bom~ pra poder me dar ao luxo de esperar que apenas algo tão arrebatador e excitante resolva as coisas. Vai ter que ser do jeito chato mesmo. E desiludida.

Dormi. Acordei e quem reinava era o PMDB. 👺

Enfim, nada me tira da cabeça que eu dormi. Não apenas eu, deu pra perceber pelas manifestações que já ensaiavam um coro pelo impeachment em 5 de fevereiro. Como assim? Por que razão? Com que objetivo? Manifestação na rua após manifestação eu me mantive (me mantenho) no pensamento de que, ainda que não haja paixão e mesmo que haja traição, pular em outros braços não vai resolver as coisas. Mas eu não tô feliz nessa relação não.

One Comment

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  1. Ao q parece tem gente “dormindo” desde meados d 2011, qdo a atual presidente reeleita já afirmava entre outras conservadorices, dentro e fora da economia, q seu governo (em nome d uma suposta governabilidade) não fazia “propaganda d opção sexual” (sic)
    Tá aí o resultado desse “tudo pela governabilidade” (sic), do mensalão petista cuja maior defesa da velha prática d caixa 2 continua sendo o “mas todo mundo sempre fez isso”, à aceitação da presente chantagem peemedebista. Já lembrava o nada santo Churchill (no caso em relação ao “pragmático” Chamberlain em 1939) “abdicaram da honra em nome da paz a qq preço. Não terão nem honra, nem paz”.

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