Um novo Brasil pra quem

Faz tempo que não escrevo sobre política, mas talvez seja hora de voltar. Digo isso porque essa semana talvez a gente tenha chegado mais perto de dizer que o sonho acabou. Não sabemos. Desejamos que não.

Eu escrevo agora porque, apesar de já ter chegado a essa conclusão em momentos de crise antes, talvez seja real a possibilidade de pessoas como eu, da minha classe social, da minha “raça”, de um lugar parecido com aquele em que eu moro, da minha geração, viver (digo conscientemente e não apenas existir) em um país que não é governado pelo PT.É uma tragédia não ser governado pelo PT? Longe disso. Mas, sem dúvida, pra gente que cresceu, estudou, se formou na universidade junto com a galera branca e rica, entrou no mercado de trabalho e hoje, mesmo que muita gente não queira é tão dono desse Brasil quanto qualquer outro brasileiro, será uma tragédia o país voltar aos anos que não vivemos. Aos anos sobre os quais apenas ouvimos falar, do confisco da poupança que não atingiu nossos pais porque eles não podiam se dar ao luxo de ter uma poupança, mas que machucou vocês, classe média histórica que agora pede “seu país de volta”.

Eu nunca achei que tinha qualquer divida com o PT, com Lula ou com Dilma. Eu sempre achei que eles fizeram apenas a obrigação deles. Fizeram até menos do que deveriam, fizeram muito menos que eu gostaria. Ao mesmo tempo eu sei que outros tiveram a mesma obrigação desde pelo menos a democratização, mas tudo que fizeram não foi por pessoas como eu. Deixaram o país cair em uma ditadura. O mantiveram sob essa ditadura enquanto lhes convinha e quando nos governaram redemocratizados e cheios de esperança mais uma vez nada fizeram.

Então, se esse for o ponto de colapso eu não vou agradecer ao PT. Não vou agradecer ao Lula nem a Dilma. Vou guardar sempre comigo que eles fizeram muito pouco. Mas eu não vou esquecer jamais e vou trabalhar pra que ninguém esqueça que não teve outro partido que não o PT, não teve outro presidente que não o Lula e não teve outra presidenta que não a Dilma que me trouxeram até aqui. Até esse espaço e condição privilegiados que são a educação, os aeroportos do país, os restaurantes caros, a concessionária, a construtora.

Talvez eu tenha que ouvir em mais espaços do que acontece hoje que é um absurdo pagar FGTS pra uma empregada (estão falando das minhas tias), que bolsa família deixa as pessoas preguiçosas (estão falando de mim, filha desse programa como milhões de outros brasileiros), que cotas são desrespeito com os estudantes brancos (brancos que podem sim ser pobres, mas só quem ouve carros travarem ao andar por um estacionamento sabe o que é ser negro e sabe que esse país tem sim uma dívida enorme com pessoas negras) e coisas do tipo. Vai doer como dói hoje. Talvez, segundo as previsões mais pessimistas, eu não possa mais sequer questionar quem traz consigo tantos preconceitos. Isso vai doer mais. Pode doer na carne, literalmente.
Eu não sei mesmo o que nos espera caso esse sonho parcial acabe. Eu não sei como vou acordar no dia seguinte. Eu não sei (e acredito que dificilmente será como agora) se poderei fazer tantas críticas a algum presidente como fiz a Dilma. E por isso eu lamento enormemente. A nossa democracia tem poucos anos mais que eu. Queria que essa irmã mais velha continuasse me guiando. Sem subterfúgios. Queria que ela fosse a melhor irmã da minha Maria.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: